Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

 OS ELEMENTOS ESSENCIAIS PARA PENSARES FILOSOFICAMENTE

 

Como nunca estudaste filosofia na escola, talvez tenhas uma ideia vaga ou até errada sobre o assunto. Ou talvez não tenhas ideia nenhuma. Como é natural, ficarás a saber melhor o que é a filosofia depois de a teres estudado correctamente. Mas é conveniente dar-te já uma ideia do que é a filosofia.

 

Provavelmente, estás habituado/a a definir as ciências como a História ou Física em termos de objecto e método. Por exemplo:

  • A aritmética elementar estuda as principais propriedades da adição, da subtracção, etc. O seu método é a demonstração matemática.
  • A biologia estuda as propriedades dos organismos vivos. O seu método é a observação e a elaboração de teorias que depois são testadas, por vezes em laboratórios.
  • A economia estuda as relações económicas. O seu método é a análise de dados estatísticos e a tentativa de produzir modelos explicativos das relações económicas.

A filosofia, tal como todas a áreas do conhecimento, tem um objecto e um método de estudo. A filosofia tem como objecto os conceitos mais básicos que usamos nas ciências, nas artes, nas religiões e no dia-a-dia. A filosofia estuda conceitos como os seguintes: o bem moral, a arte, o conhecimento, a verdade, a realidade, etc. O seu método é a troca de argumentos, a discussão de ideias, a reflexão.

 

Algumas questões filosóficas:

  • Será que tudo é relativo?
  • Será que a vida tem sentido? E se tem, qual é?
  • Como se justifica a existência do Estado, das Leis, e da Polícia?
  • Será que não faz diferença fazer sofrer os animais?
  • O que sou eu, na verdade? Será que sou apenas um corpo? Ou tenho uma alma?
  • Será que Deus existe realmente, ou será que os ateus têm razão e os crentes estão enganados?
  • E se o mundo inteiro fosse uma ilusão e nada fosse real? Como é que eu posso ter a certeza que o mundo não é uma ilusão?
  • Quando digo que uma acção é boa estou apenas a dizer que a sociedade em que vivo aprova essa acção ou essa acção continuaria a ser boa mesmo que a minha sociedade a desaprovasse?

 

OS CONCEITOS

 

São representações mentais, abstractas e gerais que reúnem as características comuns dos seres/objectos da mesma espécie, permitindo distingui-los dos seres/objectos de outras espécies.

Os conceitos funcionam em filosofia como as peças funcionam para um puzzle. Só que em filosofia cada peça pode assumir multiplos significados. O mesmo significante pode assumir diversos significados consoante o contexto em que os usamos.

 

A primeira coisa a fazer perante uma afirmação filosófica, como «Tudo é relativo», é tentar saber exactamente o que estamos a dizer, o que significam os conceitos que usamos. «Tudo» refere-se a quê? E o que quer dizer «relativo»? No estudo da filosofia, este trabalho de interpretação é crucial. Temos de saber com precisão o que realmente está a ser afirmado para podermos discutir essa afirmação.  Se me perguntares o que quer dizer «tudo» e «relativo» no contexto da minha afirmação, posso responder assim:

«Tudo» refere-se a todas as verdades. O que eu defendo é que todas as verdades são relativas. E «relativo» quer dizer que as verdades mudam, ou variam; não são coisas fixas.

 

OS JUÍZOS

 

Os juízos são  relações entre dois ou mais conceitos. Agora já compreendemos melhor o que quer dizer o juízo «Tudo é relativo». Mas será então que, nesse sentido, é verdade que «Tudo é relativo»? Que razões temos para aceitar esta ideia?

 

Já estás a ver que não basta interpretar e compreender  a afirmação «Tudo é relativo». É preciso ter uma atitude crítica em relação ao que foi dito. Será que tenho razão? Porquê? Ou será que estou enganado? E porquê?

 

OS RACIOCÍNIOS OU ARGUMENTOS

 

Quando fazemos estas perguntas, estamos a exigir argumentos. Será que os argumentos em que me baseio ao pensar que tudo é relativo são suficientemente fortes para apoiar esta ideia? Ou são apenas confusos e desinteressantes? A argumentação é o coração da filosofia e é por isso que a filosofia é uma atitude crítica.

 

Em filosofia, tens a liberdade de defender as tuas ideias. Tanto podes defender que Deus existe como que não existe; tanto podes defender que o aborto deve ser permitido como que não o deve ser. Até podes defender que a filosofia é uma ilusão e um absurdo.

 

Nesta disciplina, não te pedimos que te limites a repetir o que diz o teu professor. O que pedimos é que aprendas a pensar. E pensar implica apresentar argumentos. Tens a liberdade de defender o que quiseres, mas tens de adoptar uma atitude crítica. Isto significa o seguinte:

  1. Tens de sustentar o que defendes raciocinando com bons argumentos.
  2. Tens de aceitar discutir racionalmente os teus argumentos.

O objectivo é que sejas tu a pensar filosoficamente; mas para poderes pensar filosoficamente terás de saber usar um conjunto de instrumentos que te permitirão pensar de forma mais organizada e sistemática.  Trata-se de saber dizer de forma clara, articulada e fundamentada, com bons argumentos, por que razão determinadas afirmações estão certas ou erradas. Aí já estarás a fazer filosofia.

 

SENTIDO CRÍTICO

  • Ser crítico não é «dizer mal». Ser crítico é olhar com imparcialidade para todas as ideias — quer sejam nossas, dos nossos colegas ou de filósofos famosos. E olhamos para elas com imparcialidade para podermos avaliar se são verdadeiras ou não.
  • Ser crítico não é ser extravagante. Uma pessoa pode ser perfeitamente crítica e seguir as convicções da maioria. Ser crítico não é dizer «Não» só para marcar a diferença. Ser crítico é dizer«Sim», «Não», ou até «Talvez», mas com base em bons argumentos.

                                                                                                                                                                                 Apoio bibliográfico "A Arte de Pensar"



publicado por ideias-em-movimento às 20:53
OBJECTO DA FILOSOFIA
JEREMIAS a 4 de Março de 2014 às 12:59

Bastante sugestivo, mas ainda me inquieta a validade ou não da filosofia como ciência. Está a defender-se filosofia como ciência por se ser especialista ou tal como outras ciências que possuem um método e um objecto, assim também acontece com a filosofia?
parece-me que o objecto de estudo da filosofia é bastante abstracto. tudo isso acontece por ser uma ciência? teorética ou há outras razões que talvez eu desconheça?
Avelino a 16 de Abril de 2014 às 14:17

Obrigado pela questão, Avelino.

Na verdade, pretende-se defender a ideia de que no aspecto formal, a Filosofia, tal como as ciências , tem o seu método e o seu objecto . Contudo, na especificidade que a caracteriza, o método reflexivo tem uma abrangência de abstracção muito mais elevada pelo grau de complexidade que lhe está associado. Na verdade, ao reflectir sobre a própria ciência, enquanto forma de conhecimento, as ramificações associadas, transportam-nos para múltiplos domínios do saber, desde o domínio gnoseológico até ao axiológico, estético, ético, metafísico, etc. Neste contexto estamos já a analisar o seu objecto cuja complexidade conjunga complementarmente com o potencial evidenciado pelo seu método. Assim, se quanto à forma podemos identificar objecto e método, já quanto à sua especificidade, temos que considerar esta vasta complexidade associada.

Neste blog, as ideias têm que estar em movimento, sujeitas a partilha, é esta a condição. Podemos fazê-lo de multiplas formas, através do comentário, discussão e debate, questionando a nossa realidade para a perceber melhor.
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